[livro] O mal-estar do dominante: agradecimento aos apoios

Pessoas da Terra, amizades e compas.
Entre os meses de Abril e Julho de 2019 nos movimentamos para buscar recursos capazes de construir boa distribuição gratuita do exemplar impresso do livro “O mal-estar do dominante”. Um título que consideramos de muita relevância ao catálogo da Monstro dos Mares por abarcar em sua proposta aspectos que fazemos questão de elencar ainda que brevemente.

Método: a autora busca em sua metodologia ouvir (e estudar) a voz de personagens que por muitas vezes nos escapam aos sentidos, ficando sua interpretação restrita à generalização apressada e ao senso comum. O homem branco, cis, hétero é o objeto desse estudo que busca compreender as origens de sua falta de empatia.

Forma: É raro, não, raríssimo entrarmos em contato com um “ensaio enquanto tese”. Não é comum, nem sempre é aceito, muitas vezes se perdem na origem. A universidade tem seus ritos e nem sempre é possível romper com as formas do estabelecido. A autora nos apresenta o ensaio em primeira pessoa que deu origem à sua tese, que mesmo não sendo aceito entre os muros do conhecimento dominante, foi recebido nesta editora de braços abertos e fazemos muito gosto de sua ampla divulgação.

Em momentos tão difíceis de nossa sociedade, onde o preconceito, o patriarcado, a falta de amor e empatia causam estragos praticamente irreversíveis nas relações entre as pessoas, esse livro traz unidade, senso de cooperação e amor por tudo que acreditamos e por tudo que fazemos para combater as pequenas e as grandes opressões cotidianas.

Esse livro só foi possível graças à colaboração e solidariedade de pessoas que voluntariamente contribuíram no Catarse com recursos financeiros, transformando o projeto em realidade. Agradecemos imensamente as colaborações de:

  • Adail Sobral
  • Barbara Iansa de Lima Barroso
  • Bêh Arsênio
  • Camilo Skrok
  • Carolina Fernandes
  • Clara Silveira
  • Claudia Mayer
  • Cristina Zanella
  • Emily Vasconcellos
  • Fabiane Lettnin
  • Janaina WH
  • Leonardo Morales Ferreira
  • Lucas Alves
  • Luci Mari Leite Jorge
  • Patrícia dos Santos Quintana
  • Rafael Kimura
  • Régis Garcia
  • Rochele Souza Barbosa
  • Tiago Jaime Machado
  • Trober
  • Apoiadores e apoiadoras que optaram pelo anonimato

Por uma impressora incendiária

Olá, amizades!

Estamos na batalha para conquistar uma nova impressora, mais perigosa que a capa da revista Veja! Precisamos da sua ajuda, alegria e colaboração para atravessar os novos tempos. Queremos continuar fazendo muitos livros e zines. De Agosto de 2017 até o mês de Junho de 2019, fizemos mais de 200.000 impressões. Queremos fazer muito mais.

O próximo passo da Monstro dos Mares é intensificar o envio de materiais gratuitos para bibliotecas comunitárias, coletivos, movimentos sociais, grupos e círculos de estudos e singularidades identificadas ou interessadas em pesquisar os princípios e práticas anarquistas, anárquicas e de epistemologias dissidentes. Nossa editora está disposta a divulgar trabalhos impressos que podem contribuir à formação de pessoas interessadas em um modo de compreensão de mundo autônomo, libertário, não-binário e anárquico.

Para isso, pedimos sua colaboração na divulgação de nossa campanha “por uma impressora incendiária” no Catarse (http://catarse.me/impressoraincendiaria). Com o novo equipamento e o apoio de monas, minas e manos, vamos enviar muitos materiais com destino aos diversos recantos do país para fortalecer nossas culturas e resistências.

A campanha é na modalidade tudo ou nada (se não atingir o objetivo, o Catarse devolve a grana) e vai até o início do mês de Setembro. Agradecemos o seu carinho! =)

Livros e Anarquia!
Editora Monstro dos Mares
www.monstrodosmares.com.br

Editora Monstro dos Mares: 200.000 impressões de livros e zines anárquicos

Duzentas mil, é impressão pra chuchu! Queremos comemorar e compartilhar com vocês esses números. Criamos um hotsite com essas estatísticas na rede de serviços anônimos Tor. Se você utiliza o navegador Tor Browser (recomendamos o uso), poderá acompanhar mensalmente a atualização de nosso DataMonstro. Um caderno onde realizamos as anotações de quantos livros e zines foram impressos no mês, tal como as quantidades de materiais doados.

Ao hotsite demos o nome de Numerologia, que pode ser acessado no endereço http://numerosjibchfrrm.onion utilizando seu navegador Tor. Nesta página é possível acompanhar quantas impressões já foram realizadas, total de livros e zines impressos, quantidade de litros de tinta utilizados e o histórico mensal desde a criação do DataMonstro no final de 2018.

A importância de jogar tinta no papel é uma tarefa que nosso coletivo editorial se propõe, sabemos da importância dos conteúdos impressos circulando de mão em mão entre compas anarquistas, singularidades anárquicas, pessoas que realizam pesquisas acadêmicas, movimentos sociais, coletivos, bandos e bandas. Queremos seguir com esse rolê por mais tempo, mesmo diante do colapso que se avizinha cada dia mais.

Neste momento em que livros e editoras independentes atravessam um amplo processo de gourmetização, as editoras anárquicas e anarquistas se colocam como alternativas de baixo e baixíssimo custo para pessoas que ainda preferem o livro barato, acessível e fundamentado na cultura do faça-você-mesma e na ampla utilização de softwares livres.

Alcançamos o número de 200.000 impressões com a ajuda e a disposição de muitas pessoas que fizeram parte deste coletivo publicador, com a colaboração daquelas que foram se chegando e com o fundamental apoio das pessoas que curtem nossos materiais, compartilham nas redes sociais, recomendam para outras pessoas, que fazem compras quando possível e aquelas que fortalecem nossa Rede de Apoio financeiro no Catarse.

É com o carinho pelos livros e a forte convicção de que ao fazer edições anárquicas que passam longe das prateleiras de grandes redes de livrarias é uma forma de ação direta, uma ferramenta de luta contra o capitalismo, a colonialidade e o patriarcado em todas as suas expressões. E que por isso, pode e deve ser reproduzida para ler em qualquer lugar, discutir em grupo, promover oficinas, citações acadêmicas, rodas de conversas e
fazer impressões para fortalecer o seu rolê anarquista / banquinha de zines / coletivo.

Independente de sua corrente, tendência ou espectro de atuação anárquica ou anarquista, a Monstro dos Mares está posicionada ao lado de quem luta pelos que vem de baixo, pelas pessoas que resistem contra a Hidra de Lerna do grande capital e em conjunto com todas monas, minas e manos que fazem a luta social em todos os espaços.

Com isso convidamos as singularidades e coletividades para se somarem em nosso esforço de publicação. Utilizarem nossos materiais para criarem suas próprias editoras e distros, para fortalecerem suas atuações e compartilharem a cultura do faça-você-mesma. Seja ao solicitar o envio gratuito de livros e zines para suas iniciativas, seja comprando materiais conosco quando possível, realizando a divulgação de nossos títulos ou mesmo apoiando financeiramente para que nossa editora possa seguir existindo.

Saúde, Solidariedade, Livros e Anarquia!

Números do mês de Junho de 2019

  • Impressões totais desde Agosto de 2017: 208.007
  • Impressões de Junho de 2019: 9.829
  • Livros impressos: 86
  • Livros doados: 37
  • Zines impressos: 210
  • Zines doados: 150

Acesse o hotsite com todos os dados da Numerologia da Monstro dos Mares em http://numerosjibchfrrm.onion (requer Navegador Tor)

Numerologia do mês de Abril

Presente, passo e futuro

“Minha pedra é ametista / Minha cor, o amarelo / Mas sou sincero / Necessito ir urgente ao dentista”

BOSCO, JOÃO. Bijuterias.


Desde o mês de Setembro de 2017 a Editora Monstro dos Mares vem contando com a ajuda dos astros para conhecer a vida útil de sua única impressora, todo mês a máquina cospe um relatório com o número total de suas impressões, status do cabeçote de impressão e outras características. Esses dados são úteis para além de conhecer o desempenho do equipamento, gerar manutenções e saber como estamos indo.

No mês de Outubro de 2018 começar a contar a quantidade de livros e zines produzidos e também aqueles materiais que são repassados sem custos para singularidades, coletivos e bibliotecas comunitárias. E em Abril de 2019 decidimos começar a consolidar esses números numa página em nosso servidor solar. Até então foram:

  • 196.120 impressões;
  • 9 litros de tinta;
  • 1.611 livros;
  • 2.169 zines.

No recorte do mês de Abril temos os seguintes números:

  • Impressões gerais: 7.673
  • Livros impressos: 175
  • Livros doados: 70
  • Zines impressos: 123
  • Zines doados: 106

Entendemos que utilizar essa numerologia é uma forma de apresentar para nossas amizades da Rede de Apoio e pessoas interessadas em nossa atividade editorial o quanto a Monstro dos Mares se movimenta, como estamos produzindo e ter a dimensão do quanto nosso rolê está empenhado em realizar a divulgação acadêmica e anárquica que nos propomos.

Nosso servidor solar ainda está em testes, mas em breve estará amplamente acessível na rede de comunicação anônima Tor. Você já usa Tor?

Março de 2019: agenda dos próximos eventos, impressões e colaboração.

No mês de Março a Monstro dos Mares resolveu levantar velas e aproveitar bons ventos para navegar até os diversos eventos que se avizinham nos próximos meses. Estaremos com livros e zines na 1ª Jornada Feminista LAGEDIS na UEPG, nos dias 4 e 5 de Abril, no Prédio do PDE ( Campus Uvaranas- UEPG), No Gods No Masters Fest junto com a Distro Dysca, entre os dias 19 e 21 de Abril em Peruíbe/SP, no 6º Colóquio Mulher e Sociedade, dias 23 e 24 de Abril, no Campus Central da UEPG e também estaremos na Cryptorave com nossas amizades da Editora Subta e Mar1scotr0n Coletivo Anarcotecnológico, nos dias 3 e 4 de Maio em São Paulo/SP

Bhêi! São tantos eventos que tivemos que imprimir bastantão. Com isso, passamos das 35.000 impressões no mês de Março. São três caixas e meia de papel A4. Vamos aos números:

  • Impressões totais desde Agosto de 2017: 188.455
  • Impressões no mês de Março de 2019: 36.593
  • Livros impressos: 365
  • Livros doados: 93
  • Zines impressos: 822
  • Zines doados: 46

Desde o mês de Fevereiro recebemos a presença de uma pessoa para colaborar com as atividades de seleção de textos, diagramação, impressão, montagem e acabamento nos livros e zines da editora. Então agradecemos quem chega pra somar e damos as boas-vindas ao compa Ernesto que vem dedicando uma tarde por semana para colar conosco e fazer a palavra impressa circular mais e mais, chegar em mais pessoas e fortalecer as lutas de minas, monas e manos. É nóis!

[Vídeo] Rolê pela Editora Monstro dos Mares e agradecimentos do mês de Março

Olá compas!

No ano de 2019 nós decidimos criar vídeos apresentando alguns processos que a Editora Monstro dos Mares utiliza para fazer livros desde os primeiros passos. O vídeo de hoje é um rolê mostrando o computador, impressora, guilhotina, grampeador, capas e armazenamento.

No vídeo com um pouco mais de 5 minutos também é apresentado o equipamento conquistado com o apoio da ferramenta solidária de financiamento recorrente e coletivo, o Catarse. As pessoas realizam pequenas contribuições mensais a partir de R$5 e recebem (se quiserem) algumas recompensas por isso.

Neste mês de Março serão enviadas recompensas que trocamos com as as amizades da Imprensa Marginal Editora Anarcopunk e Distro que recebemos em nossa caixa postal.

Conheça a editora por dentro.

Nossos agradecimentos aos apoios de:

  • Lucas Soares
  • Claudia Mayer
  • Willian Aust
  • José Vandério Cirqueira
  • Manu Quadros
  • Paulo Oliveira
  • Daniela de Souza Pritsch
  • Fábio Rocha
  • Eduardo Salazar Miranda da Conceição Mattos
  • Guapo Magon
  • Apoiadoras e apoiadores anônimos

Agradecemos imensamente o apoio e o carinho das pessoas em nossa atividade. Acreditamos que livros contém em suas páginas todos os espectros de experiências capazes de transformar a humanidade.

http://catarse.me/monstromensal

Não se corromper pra nóis já é vitória! Sobre o processo em curso de gourmetização dos livros independentes.

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!
Castro Alves, Espumas Flutuantes, 1870.

Cultura como um produto das elites

Percebe-se que na história, desde a antiguidade até o World Trade Center (9/11), as elites criam hierarquias culturais a serviço de seus mais diversos anseios. No modo de pensar hegemônico desta contemporaneidade decrépita, é evidente que existem conceitos diferentes de “cultura”. Dentre os conceitos possíveis, destacamos o conceito de “Cultura” das elites, autorizado e reproduzido como o ápice das realizações da Humanidade. Hoje, quem são as pessoas que leem, frequentam espetáculos, têm acesso facilitado e mais oportunidades de acesso a atividades culturais, teatros, cinematecas e espaços especialmente destinados à reprodução da cultura cooptada e esculpida pela e para a elte e à alimentação de um sistema social excludente?

A fruição dessa “Cultura” nunca foi, por motivos que já começam a ficar aparentes neste texto, nunca foi universalizada. Ou melhor, dizem para nós que qualquer pessoa pode entrar num museu e usufruir do contato com os quadros dos Grandes Mestres, com as coreografias dos mais renomados grupos de dança. Entretanto, por mais que os discursos de governos, mecenas e programas institucionais ousem afirmar que a “Cultura é de todos”, não podemos negar, tendo o mínimo de consciência do contexto em que vivemos, que isso é mais uma mentira que nos contam.

A cultura produzida fora dos quadrantes hegemônicos (cultura feita pela elite para a elite; cultura feita pela elite para “o povo”; cultura popular cooptada e reapresentada como “cultura popular”; a não-Cultura ou os produtos culturais de baixíssimo nível mas são vendidos com a auto-consciência de que são péssimos), a produção cultural, seja ela artística ou de costumes, se dá por seus próprios mestres. Sempre estiveram em suas comunidades, com ou sem incentivos de ONG´s, OSCIP´s ou das Casas Fora-do-Eixo e suas picaretagens sem fim. A cultura popular é marginalizada em um processo disruptivo fomentado pela abstração erudita, colonial e eurocêntrica da ideia de “Cultura”.

No Brasil, a Poesia Marginal, a Geração Mimeógrafo, os Fanzineiros do Século Passado já nos apresentaram outros modos de compreender o fazer cultural. Feministas, Militantes, Rebeldes, Punks, Anarquistas e Hackers vêm, no decorrer dos anos, apropriando-se dos processos que até então eram exclusivos da indústria, seja pelo dinamismo das tecnologias ou do compartilhamento das técnicas. Mais do que isso, pela necessidade de não depender da aprovação do Deus Mercado para colocar seus gritos de resistência na fita, no disco, fanzine ou livro. Guerreiras e guerreiros que sempre fizeram das ruas o seu palco e estendem os braços para subverter a lógica do consumo e fazer sua arte, seja ela teatro, circo, poesia, música, cinema, tudo o que você conseguir inserir nesta lista. Mas antes de qualquer coisa, a tarefa é a de assumir para si o empenho de ser seu próprio meio de expressão, fazer a autonomia acontecer livre de intermediações. Ocupar a arte em todos os seus processos.

O processo de gourmetização não é novo e sabemos para onde ele vai

O título deste artigo poderia ser simplesmente “Não gourmetizem os livros”, mas o “toque de Midas” dos hipsters já aconteceu e isso não é nenhuma novidade. Foi assim com as revistas em quadrinhos, discos de vinil, bicicletas, cafeterias, caderninhos de anotações e comida vegana. É a gentrificação das culturas marginais. Se em algum momento nós tivemos ingenuidade o suficiente para achar que através de nossa resistência ativa e das pequenas mudanças em práticas cotidianas poderíamos enfrentar o grande capital, infelizmente essa possibilidade já se esgotou. Rapidamente a Hidra de Lerna se adapta e transforma ecobags em produtos de grandes marcas de fast fashion, utilizam bicicletas nos comerciais de automóveis de luxo. A própria bike em si foi tornada um item de luxo; já existem startups obstinadas em desenvolver hardwares para reciclagem e compostagem doméstica. Não há limites para a gourmetização.

As chamadas megastores por algumas décadas concentraram “o melhor da cultura”. Reuniam livros, cds e dvds em confortáveis e luxuosos espaços com cafeteria e música ambiente, praticamente um shopping dentro do shopping. Locais que davam (e dão) guarida à adolescência tardia de publicitários que não podiam comprar itens caros, mas que, agora, como profissionais liberais possuem dinheiro para forrar as prateleiras do seus quartinhos na casa da mãe. E o Deus Mercado capturou esse movimento e entregou a essas pessoas produtos cada vez mais luxuosos, franquias infinitas de adaptação de quadrinhos para o cinema… Com a popularização do acesso à internet (e ao download gratuito), essas grandes lojas precisaram diversificar os produtos para adolescentes de 20 e poucos anos e incluíram celulares, tablets e computadores em seus catálogos. Era o início do fim dessas grandes redes.

A indústria fonográfica, na sua face mais cruel, ou seja, as grandes gravadoras e distribuidoras de discos, preocupadas com o fenômeno peer-to-peer, realizaram a tarefa de “aprimorar” os aspectos físicos de seus produtos. E no final dos anos 90 e início dos 00, a mídia física do CD (que já anunciava uma vida curta) recebeu latas especiais, facas de cortes personalizadas e encartes riquíssimos. Tudo isso foi por água abaixo, desceu pelo ralo do esquecimento e hoje a mídia física é apenas um material de divulgação das bandas. Um mero cartão de visitas. Se em algum momento a ideia de vender discos para obter sucesso pareceu uma grande coisa a se fazer, na atualidade não passaria de uma divertida anedota. A mídia física foi substituída pelo Youtube. Perceba que não estamos falando de plataformas de compartilhamento de música P2P como poderia parecer, mas toda a efetividade das relações entre a performance e seu público está resumida ao Youtube. Se não estiver lá, nem sequer existe.

O mesmo aconteceu posteriormente com os filmes. Por décadas as pessoas juntaram seu sacrifício mensal para comprar um título para colocar na prateleira e assistir com as amizades nos finais de semana. Com a popularização do download, os dvds, tal como os CDs tinham somente dois destinos: 1) As caixinhas de plástico eram gourmetizadas com estojos, luvas, sobrecapas, finalizações e acabamentos especiais em verniz, papeis nobres e novamente encartes glamourosos e olhe lá! Latas! Sim! Dvds dentro de latas, como se fossem biscoitos importados do tempo da vovó. Igualzinho aos CDs. 2) Os famigerados balaios de ofertas, onde a pessoa comprava a preço de banana o último dos lotes dessa decadente indústria cultural.

Atualmente, o peer-to-peer dos filmes está sendo ameaçado pela Netflix (muito semelhante ao Youtube, porém com assinatura mensal), conforme alerta Peter Sunde, Co-fundador do The Pirate Bay em entrevista ao Torrent Freak (JAN/2018).

Se você chegou até aqui, já pode perceber que isso já aconteceu com livros das grandes editoras. Então não há razão de falar sobre elas, é hora de expor o próximo passo da gourmetização para além do churros e do picolé de frutas.

“Modern publishing is characterized by its being simultaneously cannibalistic and viviparous: while one publishing house is acquiring another, a third is opening for business.” STEINBERG, S. H.; Five Hundred Years of Printing. 1996, p. 244

“A editoração moderna se caracteriza por ser, ao mesmo tempo, canibal e vivípara: enquanto uma editora está adquirindo outra, uma terceira está abrindo suas portas.”

Conforme Sigfrid Henry Steinberg podemos perceber que depois de tanto comprarem umas às outras, as grandes editoras começaram a comprar as pequenas editoras. Misteriosamente começaram a brotar projetos editoriais, selos, editoras independentes e até mesmo as cartoneiras, inocentes que eram, agora correm velozes para alcançar seu espaço entre a matilha de lobos. Essa acusação, ou constatação, nos remete diretamente ao processo em curso das editoras independentes no Brasil.

Quem pesquisar na internet ou tiver o privilégio de conferir in loco como é dado o “fenômeno” das pequenas livrarias e editoras independentes em outros países, pode perceber que o que está acontecendo aqui no “país dos foliões” tem todas as características de um verdadeiro embuste! Lá fora, coletivos publicadores, pequenas editoras e autoras independentes produzem os livros, vendem de mão em mão em feiras, no próprio site, ou disponibilizam em pequenas livrarias de bairro, enviam para as amizades revenderem, compartilham com centros sociais ocupados e muito eventualmente em alguma distribuidora de nicho. “Lá fora”, pode ser a Argentina, Uruguai e Chile, não somente o velho continente. Uma distro/distribuidora de nicho se dá por temática de conteúdos, ou afinidades políticas entre as casas publicadoras e não por seu modelo de comercialização; logo, um livro independente não é um gênero da literatura, mas somente a forma com que a editora se organiza. E aqui estamos percebendo que as “Editoras Independentes” estão se transformando em mercado, um gênero, um objeto de fetiche da “indústria criativa”. Um orgulho para Pablo Capilantra e a “nova economia da cultura”.

Claro que grandes editoras compram pequenas editoras no exterior também, normal. Esse textão não é sobre isso, mas é sobre o modelo de negócios que está em curso em torno do objeto livro das editoras independentes no Brasil. Há atravessadores sedentos por serem a próxima megastore, a próxima Amazon, só que do livro independente brasileiro. É lógico que existem pessoas muito bem intencionadas que compram uma banca de jornal, um ônibus, um barco, uma bicicleta e transformam-na em livraria independente. Não são dessas pessoas que acreditam no livro independente como uma possibilidade para se fazer a cultura marginal e marginalizada chegar às mãos das pessoas que estamos falando. Estamos falando do inimigo real que quer abocanhar uma fatia dessa conquista das publicadoras autônomas e independentes. Deus Mercado está de olho e salivando por esses livros descolados.

Em breve você vai perceber que dentro das poucas megastores que a Amazon ainda não fechou haverá uma “quitandinha” com as editoras independentes, que os pequenos publicadores que nunca foram associados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) receberão como um espacinho para falar sobre suas produções em seus eventos e não precisar mais correr para fazerem sua “Bienal B”, sua Feira do Livro Autônomo e Independente na mesma data e em outros locais das grandes Feiras do Livro promovidas por instituições e governos. Aos bocados, eles pretendem assimilar as pequenas editoras como frutos de sua própria obra, como parte de sua benevolência, com sua autorização/bênção e até mesmo investindo algum dinheirinho nisso, pois afinal, se existem pessoas para comprar livros independentes, esse pode ser um bom negócio. Ao invés da mídia anunciar o acontecimento de uma contra-bienal do livro reividicando o papel das independentes, a Bienal vai apresentar sua bondade à mídia, ao conceder um “espacinho” em seus stands para as editoras independentes. Você em algum momento vai perceber a participação de um selo editoral de uma grande editora em pequenos eventos de editoras independentes. Então poderá perceber que as concessões são vias de mão dupla (canibal e vivípara) na assimilação do mercado. Se não agirmos, teremos cada vez mais livros bonitos, acabamentos especiais, recortes laser, furinhos, sobre capas, estojos, luvas, latas e menos popularização ou acesso ao livro impresso.

Já existem distribuidoras de editoras independentes recheadas de “agitadores culturais” que estão mais interessadas no objeto livro e como ele se apresenta para seus clientes de luxo, do que com as relações de contingência que fizeram emergir tais publicações. Este é um assunto muito sério, pois raramente as grandes editoras em suas distribuidoras dão descontos acima de 30% para lançamentos, o faturamento é realizado em 30, 60 e 90 dias e o frete é por conta do livreiro. Já o modelo sugerido por algumas dessas “novas” distribuidoras exige 50% do preço de capa dos títulos das editoras independentes (lançamentos inclusive), consignação (ou seja, o acerto é realizado quando e somente quando é realizada a venda ou no mês posterior) e a casa publicadora ainda precisa arcar com os custos de frete para o magnífico distribuidor. Caramba! Aí está realmente um grande modelo de negócio às custas dos esforços das independentes. Vejo o sorriso do SEBRAE neste horizonte!

Essa é uma estratégia de mercado para tornar o objeto livro distante do PDF, para que as pessoas tenham desejo de possuir a obra por seus aspectos físicos e sua aparência. Com tanta gourmetização, o preço dos livros independentes pode chegar à estratosfera. Uma implicação tautológica em direção a lucros muito rentáveis. Uma vez que o conteúdo é igual ao do PDF, ao pesquisar bem e com um pouco de sorte, a pessoa mais desatenta poderá encontrar título igual ou semelhante disponível para baixar na rede. E isso tem significado contínuos prejuízos ao Deus Mercado quando aplicado às grandes editoras. Mas quem terá o PDF das independentes?

NÃO SE CORROMPER PRA NÓIS JÁ É VITÓRIA!

Cada uma de nós na Editora Monstro dos Mares, temos em nossos princípios uma definição inequívoca e ampla sobre as possibilidades do livro de baixo custo nas mãos de compas. Para que as pessoas em contato com nossos livros, para que as ideias impressas nas páginas possam representar a potência de um fuzil. O livro é o fuzil de quem pensa! E ele deve estar na mão de todas as pessoas que estão no enfrentamento diário contra a Hidra de Lerna do grande capital.

O livro não deve ser um objeto de elites, de vanguardas intelectuais, de movimentos exclusivos, nem fruto de uma plataforma específica. O livro carrega em si todo o espectro de possibilidades e experiências de que algo que foi realmente feito para o propósito de estar nas mãos das pessoas, em toda parte. Como afirma Aragorn, no editorial da revista AJODA #59, Primavera/Verão de 2009.

Não se corromper pra nóis já é vitória! Assumimos aqui o compromisso de colocar tinta no papel, cortar, grampear, colar, montar o livro e oferecer títulos de baixo e baixíssimo custo para todas as pessoas. Estendemos este convite às nossas amizades, que tragam esse objetivo em seus princípios para suas editoras, que as autoras e autores exijam a possibilidade de popularizar o acesso ao livro e também, obviamente, que as pessoas rejeitem a gourmetização não apenas dos livros! Baixe o PDF, imprima, distribua!

Entendemos que esse tema causa divergência entre as pessoas que buscam objetivamente viver somente da produção de sua pequena editora, mas nossa experiência fazendo livros, estando nas ruas, na internet e de mão em mão, apresenta a condição de possibilidade para seguir realizando essa tarefa como um princípio, sem depender de intermediários ou grandes redes. Você pode não concordar com este posicionamento, mas este é um princípio muito caro para nossos objetivos e se mais pessoas compartilharem dessas práticas poderemos enfrentar a máquina com mais vigor.

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Editora Monstro dos Mares
Maio de 2018
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Este artigo é dedicado à memória de Aaron Swartz

Quando conhecemos o cotidiano da atividade acadêmica no Brasil é latente as condições de precariedade de pesquisadoras e pesquisadores. Em via de regra, não há bibliotecas especializadas, não há federalização de acervos, não há títulos impressos acessíveis. Salvo as raras exceções, ou a pessoa paga caro pelo livro no Brasil, compra o original no exterior ou “cavuca” a internet atrás do arquivo digital, preferencialmente sem pagar por isso. É praticamente impossível passar pela academia sem a obrigação de baixar conteúdos em repositórios online considerados “ilegais”.

Por isso é importante a memória da luta de Aaron Swartz, que agiu contra os altos custos para acessar conteúdos acadêmicos. O jovem ativista foi levado ao suicídio depois de intermináveis acusações, processos e judicializações. A própria internet surgiu como ferramenta de compartilhamento e universalização do conhecimento, mas se observa que mais e mais barreiras são erguidas em todas as direções. Não podemos permitir que essa jornada prossiga, compartilhe!