Coloque seu zine para navegar

oceano

Atenção artilheiro
Três salvas de tiros de canhão
Em honra aos mortos da Ilha da Ilusão
Durante a última revolução do coração e da paixão
Apontar a estibordo… Fogo!
Orquídea Negra – Zé Ramalho

O coletivo libertário de publicações Editora Artesanal Monstro dos Mares convoca fanzineirxs para embarcarem em nossa próxima aventura pelos 7 mares das palavras. Estamos desenvolvendo um serviço de distribuição de zines através dos correios e coletivos participantes.

Mensalmente serão enviadas caixas contendo 400gr de papel e tinta, dependendo da quantidade de páginas de cada zine selecionado, estimamos que as pessoas receberão entre 10 e 20 publicações. As embalagens serão artesanais e colecionáveis, sendo que todo mês terão uma pintura personalizada. A arte da bagaça já está em desenvolvimento aqui em nosso espaço, numa garagem de Cachoeira do Sul (RS).

O valor do serviço ainda não está definido mas já temos algumas considerações importantes à fazer, uma vez que não haverá nenhum centavo de lucro envolvido. Nosso objetivo é colocar mais e mais zines para rolar, chegar nas mãos de pessoas, coletivos, banquinhas, distros e colecionadores. Todos os recursos arrecadados serão utilizados na captação de acervo, manutenção da zineteca do coletivo, impressão de mais zines, fundo de incentivo à novas publicações da editora e claro, muitas despesas de correios.

Por isso convidamos pessoas, grupos, coletivos, federações, redes, turmas, bandos e bandas que tenham zines, mesmo aqueles engavetados, para enviarem ao nosso coletivo e serem distribuídos num tsunami de caixinhas flutuando nos mares de palavras. Recentemente resgatamos duas máquinas fotocopiadoras do descarte e assim que possível elas vão trabalhar a todo o vapor para enviar zines para todo o país.

Para jogar sua contribuição nessa barca, basta preencher o formulário na página de envio de zines e aguardar o retorno, assim que o seu zine for incluído em uma das caixas, você receberá um e-mail solicitando o endereço de entrega para levarmos para sua casa as publicações da mesma forma que chegarão nas casas de todxs xs assinantes do serviço de distribuição.

Caso você tenha interesse em receber os zines na sua casa, basta espiar à bombordo e aguardar novos post aqui no blog, a previsão de lançamento do serviço é para o mês de Abril, com a primeira postagem nos correios para o primeiro dia útil de Maio e assim sucessivamente. Se não der para aguentar a ansiedade, não tem problema, basta entrar em contato conosco através do We. ou em nossa página no fachobook ou por e-mail (nossos piratas são viciados em internet e respondem bem rápido).

Ahoy!

[evento] No fundo do poço habita o monstro

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“Enfie os pés no balde e segure firme na corda enquanto alguém gira a manivela. Pouco a pouco as paredes escuras do poço pintam toda a sua visão do mais puro breu, a temperatura baixa e a umidade do lugar toma conta dos seus ossos.

A corda desce, o balde se movimenta quebrando o silêncio sepulcral do poço, o eco do tilintar de pequenas pedrinhas e das goteiras dão a noção aos seus sentidos da altura em que estás, girando pela manivela é possível perceber que a água está cada vez mais próxima.

Lentamente seus pés mergulham, o corpo inteiro se resfria, rapidamente os tentáculos abraçam, envolvem e puxam sua carcaça humana para dentro do estômago do grande monstro. Lá, deslizando pelo tobogã ondulado da traqueia, repousas solenemente nos braços de seus companheiros e companheiras de luta para uma reunião.

Ao final do encontro sairás cuspida e mastigadamente, retornarás à palidez da superfície radiante de energia transformadora (ou pode ser apenas a baba de todas as conversas). Depois de dias de lutas e noites de amor, o carinho dos abraços, das rodas de chás e do sono perdido, serão não somente as boas histórias para contar deste mergulho e entregas no fundo do poço.”

Encontro de apresentação da Editora Artesanal Monstro dos Mares, debate sobre livros artesanais, recepção de novxs autorxs, inicio das atividades da garagem cultural biblioteca libertária e a urgência da literatura marginal nos dias de hoje.

Dia 24/09
19 horas
Rua Dona Hermínia, 2392.
Trazer contribuição para o jantar (dinheiro ou alimentos), se possível.
Cardápio será definido na hora.

Traga seu pendrive, notebook, tablet ou celular para troca troca de arquivos digitais.
Wi-Fi Free

Aceitamos doações de livros, revistas em quadrinhos, filmes em dvd e discos de vinil para o projeto da garagem cultural.

www.monstrodosmares.com.br

Dulcinéia Catadora: O fazer do livro como estética relacional

Por Livia Azevedo Lima* em trecho publicado em Akademia Cartonera

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Dulcinéia Catadora é um coletivo formado por artistas plásticos, catadores e filhos de catadores que produz livros com capas de papelão, pintadas à mão, e, além disso, realiza oficinas, instalações, ocupações de espaços culturais, como bibliotecas, e intervenções urbanas.

O projeto derivou do coletivo Eloísa Cartonera, criado em março de 2003 pelo artista plástico Javier Barilaro e pelo escritor Washington Cucurto, em Buenos Aires, Argentina. Com intensa atividade editorial, o grupo argentino possui um catálogo com mais de 100 títulos, entre autores novos e consagrados. Conquistou reconhecimento artístico e social, cuja expressão pode residir no convite para participar da 27ª Bienal de São Paulo, em 2006, com curadoria de Lisete Lagnado, com título derivado da obra de Roland Barthes “Como viver junto”. Durante a Bienal, formou-se um atelier em funcionamento permanente. Ao grupo argentino somou-se a participação de catadores, filhos de catadores e artistas brasileiros, com mediação da artista plástica paulista Lúcia Rosa, que já trabalhava com material reciclado. A partir deste contato, e do envolvimento e trabalho de Lúcia Rosa, formou-se o projeto-irmão, Dulcinéia Catadora, que começou a funcionar no Brasil a partir de 2007.

O nome Dulcinéia Catadora é uma homenagem à catadora Dulcinéia, mas também é o nome da personagem feminina do livro “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes. O papelão usado na confecção dos livros é comprado da cooperativa Coopamare por R$1,00 o quilo, valor cinco vezes maior do que o praticado usualmente para efeito de reciclagem. Os livros são feitos com miolo fotocopiado em papel reciclado; encadernação simples, grampeada ou costurada; colados na capa de papelão pintada à mão com guache. A diagramação é feita pelos artistas e escritores e a seleção dos textos, por um conselho editorial formado por escritores que colaboram com o projeto e se alternam neste trabalho, como Carlos Pessoa Rosa, Rodrigo Ciriaco, Flávio Amoreira e Douglas Diegues, este último também colaborou para o coletivo Eloísa Cartonera e fundou, em 2007, a cartonera Yiyi Jambo, no Paraguai.

A seleção dos textos leva em consideração não apenas a qualidade literária e o conteúdo, como também o caráter sociopolítico, priorizando aqueles que atentem para as minorias sociais. Os autores cedem os textos, mediante autorização escrita e recebem, em contrapartida simbólica, cinco livros de sua autoria. Todos os livros podem ser traduzidos para o espanhol e divulgados por outras células do projeto na América Latina, (são elas): Animita Cartonera (Chile), Eloísa Cartonera (Argentina), Felicita Cartonera (Paraguai), Kurupí Cartonera (Bolívia), Mandrágora Cartonera (Bolívia), Nicotina Cartonera (Bolívia), Santa Muerte Cartonera (México), Sarita Cartonera (Peru), Textos de Cartón (Argentina), Yerba Mala Cartonera (Bolívia), Yiyi Jambo (Paraguai) e La Cartonera (México).

Essa rede de projetos pares que se formou na América Latina é um caminho alternativo ao mercado de arte e ao mercado editorial. O escritor que não conseguia se inserir em uma grande editora, agora tem a possibilidade de ser editado e o seu texto poderá circular por diversos países. Da mesma forma os catadores e os filhos de catadores que participam da oficina se abrem para novas possibilidades profissionais e desenvolvem seu potencial artístico. A soma desses esforços orientados para um objetivo comum, apesar de cada projeto possuir suas especificidades, denota, politicamente, a busca por autonomia e, esteticamente, a realização de um trabalho artístico que está focado no resultado das trocas entre os indivíduos que o produzem. As atividades do atelier geram renda, mas, sobretudo, promovem a autoestima e o intercâmbio de experiências entre pessoas com origens e repertórios diversos, que ali se encontram, em um espaço aberto, para o exercício do prazer de criar.

Livia Azevedo Lima cursa o terceiro ano da graduação em Comunicação Social com ênfase em Produção Editorial e Multimeios na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil. Escreve ficção e trabalha como estagiária de pesquisa no Núcleo de Documentação e Pesquisa do Instituto de Arte Contemporânea, em São Paulo.

Publication Studio: a editora artesanal que já vendeu mais de 10.000 livros

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Geralmente quando falamos sobre editoras artesanais, as pessoas costumam acreditar que criar livros com as mãos seja uma ideia romântica e distante de ser “modelo de negócio de sucesso”. Bom, primeiro precisamos definir que modelo é esse. Afinal, já sabemos que a maioria dessas pessoas, acredita num modelo capitalista, baseado na métrica de replicação e escala. Quanto mais volume, maior o lucro. Definitivamente nós rejeitamos esse modelo. Nosso sucesso é criar objetos artesanais bonitos, que contenham boas histórias, que promovam o pensamento crítico e que possam ser reconhecidos por apresentarem-se em contraponto à lógica atual. Sim, ainda que tenhamos que vender os livros (mesmo aceitando trocas), não significa que concordamos com essa lógica, apenas estamos evitando fazer parte integral de suas motivações, formas de pensar e agir.

Com o surgimento de aparelhos como o Kindle, os tablets e o próspero formato de e-books, que espaço nos resta para o livro “físico” em nossas vidas? Como podemos tratar adequadamente por livro um objeto que nós podemos ler, falar, estar em contato com os amigos, etc… Será que aquilo que conhecemos por livro terá seu espaço modificado, será que isso tudo vai mudar, ou será que já mudou?

Em 2009 na cidade de Portland (EEUU), o ex-editor literário da revista Nest, Matthew Stadler e uma jovem escritora chamada Patrícia No utilizaram uma loja emprestada para fundarem a editora Publication Studio. Sim, eles estavam fodidos e sem grana, mas encontraram meios super baratos para confeccionarem livros encadernados manualmente, um de cada vez. A ideia de utilizar todos os meios possíveis para fazer livros de artistas e autores locais que admiravam e vendê-los para o público parecia muito simples, até que o curador Jans Possel pediu à dupla editar 20 livros para participarem da Bienal de Amsterdam. Stadler e No chamaram artistas próximas de suas relações e mais 19 livrinhos brotaram. Depois disso, a editora nunca mais parou.

Construindo uma comunidade em torno dos livros artesanais

Dois anos mais tarde a editora ainda continuava crescendo, outras seis editoras surgiram nos Estados Unidos naquela época (Berkeley, Vancouver, Minneapolis, Toronto, Ontário e Los Angeles), cada uma usando as mesmas formas de baixo custo para fazer livros encadernados novinhos todos os dias. Em conjunto com essas novas editoras, a Publication Studio já lançou cerca de 90 títulos e vendeu mais de 10.000 livros artesanais.

Nossos livros desafiam as noções pré-concebidas sobre o que um livro pode ser, basta olhar às indefiníveis experiências possíveis ao manusear um flipbook de arte como Blush, de Philip Iosca por exemplo. Nós entendemos que apesar de nossos métodos misteriosos, o sucesso da Publication Studio encontra-se na forma com que ela compartilha o sentimento de que não se está apenas fabricando livros, mas também produzindo um público.Matthew Stadler

Ao contrário de um mercado, um público é difícil de quantificar. É impossível traçar um gráfico ou pulular uma planilha. O público é nossa rede de editoras irmãs, autores, encadernadores autônomos, bibliotecas, livrarias e leitores, é o resultado de conexões pré-existentes, amizades, uma modesta presença na web e muito boca a boca. No começo em 2009, as 20 artistas tinham alguma relação com Stadler e No, não precisou nenhum edital ou chamada pública para começar as publicações.

Por exemplo, quando Stadler enviou um email ao amigo e fotógrafo Ari Marcopoulos perguntando se havia interesse em publicar um livro, o fotógrafo respondeu 40 minutos depois com um PDF pronto para impressão de seu livro, The Round Up. Nem sempre os livros são “fermentados” com esta velocidade. O primeiro livro da artista Vic Haven, Hit the North, foi criado um ano antes da publicação, durante uma conversa informal na casa de Stadler. O livro foi lançado em conjunto com uma mostra de arte numa tiragem limitada de exemplares.

Esse artigo é uma versão tosca do texto em inglês.

Modelo editorial colaborativo: uma forma coletiva de fazer e distribuir livros

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Foto: pessoal da Editora Eloísa Cartonera em Brandsen

Sim! existem muitas pessoas que sabem e gostam encadernar livros, e também muitos escritores interessados em público. Nosso único desejo é de criar uma forma de intercâmbio entre estas pessoas, e se possível entre elas e os leitores.

Uma editora colaborativa como a Monstro dos Mares é um conceito, não uma instituição. Assim, não existe apenas uma única forma para fazê-la existir. A ideia básica é que os escritores criem conteúdo, repassem para os encadernadores, e estes, confeccionem o livro-objeto de forma artesanal, que em breve estará nas mãos dos leitores. Basta então tornar possível esta união, mais ou menos assim:

  • Que o leitor possa solicitar os livros que quer ler, pagando um preço justo por ele.
  • Que o encadernador tenha acesso à obra do autor, de forma que possa imprimi-la e enviá-la ao leitor, recebendo sua parte pelo trabalho exercido.
  • Que autor e encadernador possam criar uma relação de cooperação, onde o autor escreve e envia seus livros para os encadernadores, e recebe sua parte devida.

O processo é simples: depois de definida a edição, a Monstro dos Mares recebe do autor o texto no formato bruto, imprime, encaderna e envia aos pontos de venda. Quando vendidos, o montante dos recursos conquistados são repartido entre vendedor, autor, editora e fundo de lançamento de novas publicações.

Confecção artesanal de livros

A encadernação de um livro, no formato tradicional, pode ser feita simplesmente prendendo as folhas e passando cola. O material pode ser impresso por computador, ou simplesmente a partir de tradicionais fotocópias. O procedimento é simples:

  1. O autor cria o conteúdo
  2. O texto é editado utilizando um processador de texto comum ou software de editoração eletrônica
  3. O material é impresso
  4. As folhas são cortadas, usando uma tesoura, estilete e régua ou guilhotina
  5. As páginas são coladas ou costuradas
  6. A capa é anexada ao conjunto
  7. Registra-se com um carimbo o número do exemplar

O custo é acessível, pois o maquinário varia de uma tesoura a um computador com impressora. O mais importante é que neste método o custo por exemplar é “plano”, ou seja, tanto faz um ou um milhão de exemplares, que o custo final é o mesmo. Desta forma, pode-se criar livro a livro, dando margem para extrema personalização do material.

Vantagens de um modelo distribuído

Já que os livros são feitos um a um, existem diversas vantagens neste modelo:

  • Há necessidade de estoque é mínima, com pouco risco de encalhe, pois a produção pode ser feita conforme uma demanda.
  • Alta personalização do exemplar
  • Baixo investimento
  • Já que o risco é baixo o custo torna-se acessível, ou seja: livros mais baratos
  • Modelo mais inclusivo de produção intelectual
  • Os participantes estão junto da comunidade (moram onde comercializam), fazem parte dela e sabem quais suas necessidades, podendo supri-la em termos de informação

Criar, manter e ampliar uma editora artesanal é simples, nós estamos dando o pontapé inicial na Monstro dos Mares, mas você pode pegar essas ideias e começar a sua cooperativa de trabalho, editora doméstica, artesanal ou mesmo se juntar a nós. Vamos em frente!

¡A Las Barricadas!
Inspirado no artigo publicado no CMI