Agradecimentos Rede de Apoio Set/Out

Tornar possível o envio de livros e zines gratuitamente para diversos rolês é uma tarefa de nossa editora. Realizar a divulgação de epistemologias dissidentes para além dos muros das universidades também. Mas queremos poder fazer mais do que isso, queremos chegar nos coletivos, nos grupos, nos bandos, bandas, estar de mão em mão com quem faz a luta social diária. Nosso projeto editorial busca realizar o registro e a difusão do tempo que , do que acontece nas ruas, do que forma os modos do pensamento das pessoas que compartilham de éticas e práticas disruptivas, tanto anárquicas, anarquistas, queer, anticivilização, hacker, e outras. E a tinta no papel é nosso modo de agir e não se corromper, pra nóis já é vitória.

Mas somente poderemos fazer mais quando estivermos menos dependentes das amarras cotidianas e para isso contamos com uma rede de apoio formada por pessoas que acreditam e confiam em nosso fazer-livros e por isso agradecemos imensamente:

  • Sandro Barroso
  • Paulo Henrique Souza
  • Las Monas Sítio Experimental
  • Ricardo
  • Willian Aust
  • Manu Quadros
  • José Vandério Cirqueira

Se puder, faça parte de nossa rede de apoio. A partir de R$5 por mês você já pode contribuir para nosso barco navegar em águas cada vez mais distantes. Valeuzão!

[podcast] Bate-papo com Coletivo AnarcoTecnológico Mariscotron

Durante alguns dias recebemos as pessoas Coletivo Anarcotecnológico Mariscotron para conversas, paçocas, botar tinta no papel e trocas. Aconteceram dois encontros com pessoas da comunidade: o primeiro foi uma conversa sobre open-source, eletrônica, componentes, energia solar, microcontroladores PIC, robótica, domótica, entre outros assuntos com visitantes da casa Monstro dos Mares, estudantes do IFPR acompanhados de um técnico administrativo em educação e o Mariscotron (FOTO). O segundo encontro foi realizado na Estação União, a ferroviária que divide a cidade de União da Vitória (PR) e Porto União (SC) no dia 18 de Setembro. Na ocasião a conversa seria somente sobre a crítica anarquista à democracia, mas enquanto esperávamos as pessoas chegarem gravamos uma entrevista para projeto de pesquisa do Vertov sobre coletivos tech e a conversa se desdobrou para cultura hacker, tecnologia, tecnopolítica e democracia. Confira o podcast!

Participantes: abobrinha, Absort0, Chúy, João Nilson e Vertov.

mariscotron.libertar.org

Se não conseguir ouvir online, você pode fazer o download do arquivo (72,3M) para ouvir em qualquer lugar. Disponível em Archive.org.

Olá Compas! Manifesto anarquista e outros escritos

Olá Compas! Manifesto anarquista e outros escritos
Jesús Lizano
Tradução e apresentação de Jonas Dornelles
Revisão e preparação de Claudia Mayer e Lívia Segadilha
Editora Monstro dos Mares
ISBN 978-85-68845-08-0
68 páginas

A obra que temos a seguir é o apogeu de uma longa experiência libertária, como buscou seu autor, o poeta e filósofo espanhol Jesús Lizano. Escritas de maneira enganadoramente simples, num tom próximo ao bate-papo, as ideias contidas neste manifesto representam a síntese das propostas lizanistas. Sua experiência se refletiu e encarnou em suas poesias, ensaios, manifestos. E, principalmente, em sua maneira de ser. Lizano era antes de tudo um quixotesco libertário na luta pela Acracia.

Nascido em 1931, seus textos vieram à luz sob várias assinaturas, tais como Coletivo Jesús Lizano ou Engenhoso Libertário Lizanote da Acracia, e afirmou sempre que sua vida era vivida dentro dessas multiplicidades. Licenciado em Filosofia, sua “aventura humana”, dizia, foi a de um cristianismo herdado, passando pelo existencialismo nos anos 50, pelo marxismo humanista, para então desaguar no anarquismo da Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e dos Ateneos Libertarios nos anos 70. Nesse meio tempo, deu luz a uma vasta produção, escrevendo ao longo de décadas uma volumosa obra, cuja publicação póstuma ultrapassa o milhar de páginas.

Neste livro, buscamos uma alternativa à marcação binária de gênero da heteronormatividade que utilizasse os recursos disponíveis na própria língua para não reproduzirmos a prevalência do gênero masculino sobre as outras possibilidades de se vivenciar os corpos. Nesse processo, tentamos também buscar alternativas ao capacitismo de softwares de conversão texto-para-voz que não reconhecem quando são usados “x” ou “@”. Percebemos também que muitas vezes Lizano problematiza o binário masculino/feminino (quando faz referência, por exemplo, a trabalhos construídos como masculinos e aqueles construídos como femininos). Neutralizar o gênero nessas problematizações seria invisibilizar importantes questões que Lizano discute. Por tudo isso, escolhemos reescrever muitos trechos – um trabalho que, esperamos, venha a contribuir com a construção do imaginário não sexista, não racista e não capacitista que almejamos.


Promoção de lançamento: R$18,00 com frete incluso em nossa loja.


 

Um mês, muitas impressões.

Foi com um pouco de preocupação que entramos nas águas do financiamento coletivo, por medo do desconhecido. Chegamos molhando as canelas, pé por pé, sentindo o repuxo. Que bom que vocês estão aqui formando essa rede de apoio que é muito importante para a continuidade de nosso rolê editorial. Nesta primeira comunicação aberta, queremos falar um pouquinho sobre como foi esse primeiro mês e na medida possível vamos pensar formas de atualização desses números sem tornar a coisa chata.

Lá vai! 7.894 impressões, recebemos a visita de amizades da Editora Subta com quem tivemos ótimos momentos cheios de trocas de materiais, boas conversas, comidinhas, etc. Recebemos alguns alunos e um agente educacional do IFPR – Campus União da Vitória para um bate-papo sobre eletrônica e tecnologias solares juntamente com amizades do Coletivo AnarcoTecnológico Mariscotron que renderem um Podcast (sairá em primeira mão aqui na rede de apoio), participamos de uma feira de livros, recebemos livros de presente pela caixa postal.

Também entregamos exemplares do livro Ciberfeminismo para cada biblioteca da Universidade Estadual do Paraná – Unespar (em breve link do Pergamum), doação de sete exemplares do mesmo título para o IV Encontro de Gênero, Feminismos e Políticas Públicas em União da Vitória, enviamos 50 zines da coleção ao coletivo Contraciv e estamos criando materiais bem bacanas com o pessoal do BaixaCultura. Ufa! Certamente esquecemos de alguns acontecimentos, por isso pretendemos gerar mais registros sobre o que está acontecendo.

Algumas imagens estão no Instagram @monstrodosmares, posts no facebook, mas queremos utilizar mais o blog e e-mails. Falando em e-mail, graças à contribuição das pessoas que formam nossa rede de apoio, agora temos um novo endereço: editora@monstrodosmares.com.brpublicamos no blog as motivações e usos dessa ferramenta.

Agora aquela foto bonita da caixa de papel (5.000 folhas) e do Litro de tinta pigmentada de alta qualidade que conquistamos com o apoio das pessoas que confiam no livro como possibilidade real de transformação de mundos, de divulgação de ideias anárquicas, na articulação de espaços para epistemologias dissidentes dentro e fora das universidades e para além delas.

Obrigadão Rede de Apoio!


Claudia Mayer
Lívia Segadilha
Tiago Jaime Machado

Editora Monstro dos Mares
Caixa Postal 155
União da Vitória – PR
84600-970
site: monstrodosmares.com.br
blog: monstrodosmares.milharal.org
rede de apoio: catarse.me/monstromensal
telegram: @editoramonstrodosmares
facebook: fb.com/monstrodosmares
instagram: @monstrodosmares

Novo endereço de e-mail para uso geral e porque?

Olá amizades,

Todas as conversas sobre privacidade, neutralidade de rede, segurança da informação e proteção são cada dia mais necessárias e mais presentes em nossas conversas e reuniões. Ao mesmo tempo, percebemos a necessidade de uma presença ativa em várias redes sociais e espaços dominados pela internet corporativa. Pensando nisso, decidimos não deixar nossos dados tão evidentes aos publicitários e tampouco trafegar conteúdos “genéricos” em servidores como o Riseup, mantidos com a boa vontade e o empenho de diversas pessoas. Seu uso responsável garante a segurança de milhares de militantes e ativistas.

Em nossa mais recente reunião, optamos por criar um email de uso geral para ser utilizado nas redes sociais e qualquer outra coisa que o Google e Facebook possam espiar. O endereço do Riseup será utilizado para dados preferencialmente criptografados utilizando OpenPGP.

Sabemos que de qualquer forma o Estado (Operação Érebo) se manterá em vigilância constante, de mãos dadas com corporações e agentes de negócio em rede. A internet está sempre ao alcance do Grande Irmão, mas enquanto pudermos dificultar, sabotar e embaralhar; façamos. Faça você também!

Novo e-mail de contato de uso geral:
editora@monstrodosmares.com.br

e-mail para contatos preferencialmente criptografados:
monstrodosmares[a]riseup.net (baixe a chave pública)

Separamos uma lista com alguns materiais que você pode consultar para obter informações sobre segurança e privacidade de dados, aumentando na medida do possível os níveis de proteção.

Por você, para seu coletivo, para uma internet melhor.

Rede de Apoio Editora Monstro dos Mares

Olá amizades, demos início ao projeto de rede de apoio para nosso rolê acontecer, se manter e seguir existindo. Depois de 5 anos fazendo panfletos/zines e de 3 anos produzindo livros de forma absolutamente artesanal, com preços super honestos e com o objetivo de fazer com que os livros cheguem na mão de mais e mais pessoas, nós da Editora Monstro do Mares decidimos que nossa jornada requer mais fôlego para sobreviver, seguir existindo e se envolver em novos livros com mais profundidade. Por isso, estamos colocando o barco nas águas das contribuições recorrentes, formando uma rede de apoio ao nosso projeto editorial acadêmico e anárquico para seguirmos navegando!

Confira o projeto no Catarse e se puder, contribua.

Cibernética, Anarquismo e auto-organização

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LANÇAMENTO: Cibernética, Anarquismo e auto-organização John Duda Tradução de Felipe Drago 32 páginas O renascimento e a reinvenção da teoria anarquista na segunda metade do século XX partilhou sua fase conceitual com o aparecimento da cibernética. Tendo em consideração as obras de Sam Dolgoff, John McEwan, Gray Walter, Paul Goodman e Gregory Bateson, entre outros, destaco alguns momentos-chave em que os novos conceitos científicos de sistemas, causalidade circular e auto-organização, encontraram seus caminhos em direção à teoria antiautoritária. Ao desenredar as múltiplas vertentes deste complicado encontro entre o anarquismo e a ciência do século XX, podemos entender melhor a genealogia das noções contemporâneas em torno da auto-organização, das redes e do horizontalismo, assim como evitar algumas das armadilhas enfrentadas pela geração anterior, encontrando, assim, inspiração em algumas das vias oferecidas por esta interseção ainda não totalmente explorada. www.monstrodosmares.com.br

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Cibernética, Anarquismo e auto-organização
John Duda
Tradução de Felipe Drago
32 páginas

O renascimento e a reinvenção da teoria anarquista na segunda metade do século XX partilhou sua fase conceitual com o aparecimento da cibernética. Tendo em consideração as obras de Sam Dolgoff, John McEwan, Gray Walter, Paul Goodman e Gregory Bateson, entre outros, destaco alguns momentos-chave em que os novos conceitos científicos de sistemas, causalidade circular e auto-organização, encontraram seus caminhos em direção à teoria antiautoritária. Ao desenredar as múltiplas vertentes deste complicado encontro entre o anarquismo e a ciência do século XX, podemos entender melhor a genealogia das noções contemporâneas em torno da auto-organização, das redes e do horizontalismo, assim como evitar algumas das armadilhas enfrentadas pela geração anterior, encontrando, assim, inspiração em algumas das vias oferecidas por esta interseção ainda não totalmente explorada.

[Distribuição] 30% de desconto para fortalecer grupos de estudos, coletivos, banquinhas e livrarias

Semanas atrás publicamos o manifesto “Não se corromper pra nóis já é vitória” e apontamos a necessidade de mais livros e editoras comprometidas em colocar na rua materiais das frentes de luta e das epistemologias dissidentes. Assumimos que o “livro é o fuzil de quem pensa!”, para muito além dos PDFs que entopem HDs (e nem sempre são lidos), estamos assegurando nossa posição e empenho por mais livros e zines com preços acessíveis a todas as pessoas.

Entendemos que a tinta no papel pode ser uma ferramenta de luta contra o capitalismo, a colonialidade e o patriarcado em todas as suas expressões. Acreditamos que todas obras que produzimos e distribuímos podem e devem ser reproduzidas para serem lidas em qualquer lugar, discutir em grupo, promover oficinas, citações acadêmicas, rodas de conversas e para fortalecer o seu rolê anarca / banquinha de zines / coletivo.

Ao fazermos livros, estamos dando espaço de articulação às nossas possibilidades de agir no mundo. Ainda que isso não seja a única coisa a se fazer, ou a única coisa que fazemos, essa atividade compõe muito daquilo que nos constitui como pessoas em movimento, seja ao realizar divulgação acadêmica anárquica e disruptiva, seja nas relações em nossas áreas de estudo ou redes de militância.

Esperamos que o desconto de 30% para 10 ou mais exemplares do mesmo título seja uma forma de contribuir com a disseminação de ideias para quem busca compreender, ressignificar e transformar o mundo de mãos dadas com as pessoas que, assim como nós, estão empenhadas em propor diferentes visões de mundo.

Como funciona:

  1. acessar a loja virtual monstrodosmares.com.br
  2. escolher o título desejado;
  3. adicionar 10 exemplares ao pedido;
  4. automagicamente o site aplicará o desconto de 30% aos exemplares do título escolhido;

Livros e Anarquia!
Editora Monstro dos Mares


Este artigo foi escrito e inspirado em homenagem a memória de Robson Achimé, um editor solitário-estelar da anarquia que localizou sua militância em torno dos livros.

“Uma estrela solitária a editar palavras da anarquia. Interessado em jazz e no amor livre, preocupado em atiçar e alertar os desavisados, a sacudir o conforto dos covardes, dos omissos e dos doutrinários. Literatura e anarquia, parceria inseparável. Impaciente com o mercado, não tinha CNPJ e nem emitia nota fiscal. Editou muitos clássicos, mas foi um dos únicos a editar anarquia hoje, em português, de autores que o mercado editorial simplesmente desconhecia. Inventou uma revista, a letralivre, que conversava com as edições dos jornais históricos da anarquia no Brasil, ao mesmo tempo que se aproximava dos fanzines anarco-punks. Foi responsável pela reativação do boletim do CCS-SP, encalacrado há mais de uma década, que sem ele segue sem ser impresso. Diagramou e imprimiu por conta própria. Distribuía suas edições e de companheiros pelo correio. Não existe história e memória da anarquia no Brasil sem ele. Brincava com as palavras impressas e as páginas de dizeres e imagens como uma criança grande. Editor incontornável, homem extraordinário. A anarquia sabe o tamanho que ele tem. Um instaurador!” Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-Sol), no convite para exibição do documentário “Os Insurgentes” publicado na Agência de Notícias Anarquistas (A-N-A) em 12 de Novembro de 2014.

Assista ao documentário:

Não se corromper pra nóis já é vitória! Sobre o processo em curso de gourmetização dos livros independentes.

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!
Castro Alves, Espumas Flutuantes, 1870.

Cultura como um produto das elites

Percebe-se que na história, desde a antiguidade até o World Trade Center (9/11), as elites criam hierarquias culturais a serviço de seus mais diversos anseios. No modo de pensar hegemônico desta contemporaneidade decrépita, é evidente que existem conceitos diferentes de “cultura”. Dentre os conceitos possíveis, destacamos o conceito de “Cultura” das elites, autorizado e reproduzido como o ápice das realizações da Humanidade. Hoje, quem são as pessoas que leem, frequentam espetáculos, têm acesso facilitado e mais oportunidades de acesso a atividades culturais, teatros, cinematecas e espaços especialmente destinados à reprodução da cultura cooptada e esculpida pela e para a elte e à alimentação de um sistema social excludente?

A fruição dessa “Cultura” nunca foi, por motivos que já começam a ficar aparentes neste texto, nunca foi universalizada. Ou melhor, dizem para nós que qualquer pessoa pode entrar num museu e usufruir do contato com os quadros dos Grandes Mestres, com as coreografias dos mais renomados grupos de dança. Entretanto, por mais que os discursos de governos, mecenas e programas institucionais ousem afirmar que a “Cultura é de todos”, não podemos negar, tendo o mínimo de consciência do contexto em que vivemos, que isso é mais uma mentira que nos contam.

A cultura produzida fora dos quadrantes hegemônicos (cultura feita pela elite para a elite; cultura feita pela elite para “o povo”; cultura popular cooptada e reapresentada como “cultura popular”; a não-Cultura ou os produtos culturais de baixíssimo nível mas são vendidos com a auto-consciência de que são péssimos), a produção cultural, seja ela artística ou de costumes, se dá por seus próprios mestres. Sempre estiveram em suas comunidades, com ou sem incentivos de ONG´s, OSCIP´s ou das Casas Fora-do-Eixo e suas picaretagens sem fim. A cultura popular é marginalizada em um processo disruptivo fomentado pela abstração erudita, colonial e eurocêntrica da ideia de “Cultura”.

No Brasil, a Poesia Marginal, a Geração Mimeógrafo, os Fanzineiros do Século Passado já nos apresentaram outros modos de compreender o fazer cultural. Feministas, Militantes, Rebeldes, Punks, Anarquistas e Hackers vêm, no decorrer dos anos, apropriando-se dos processos que até então eram exclusivos da indústria, seja pelo dinamismo das tecnologias ou do compartilhamento das técnicas. Mais do que isso, pela necessidade de não depender da aprovação do Deus Mercado para colocar seus gritos de resistência na fita, no disco, fanzine ou livro. Guerreiras e guerreiros que sempre fizeram das ruas o seu palco e estendem os braços para subverter a lógica do consumo e fazer sua arte, seja ela teatro, circo, poesia, música, cinema, tudo o que você conseguir inserir nesta lista. Mas antes de qualquer coisa, a tarefa é a de assumir para si o empenho de ser seu próprio meio de expressão, fazer a autonomia acontecer livre de intermediações. Ocupar a arte em todos os seus processos.

O processo de gourmetização não é novo e sabemos para onde ele vai

O título deste artigo poderia ser simplesmente “Não gourmetizem os livros”, mas o “toque de Midas” dos hipsters já aconteceu e isso não é nenhuma novidade. Foi assim com as revistas em quadrinhos, discos de vinil, bicicletas, cafeterias, caderninhos de anotações e comida vegana. É a gentrificação das culturas marginais. Se em algum momento nós tivemos ingenuidade o suficiente para achar que através de nossa resistência ativa e das pequenas mudanças em práticas cotidianas poderíamos enfrentar o grande capital, infelizmente essa possibilidade já se esgotou. Rapidamente a Hidra de Lerna se adapta e transforma ecobags em produtos de grandes marcas de fast fashion, utilizam bicicletas nos comerciais de automóveis de luxo. A própria bike em si foi tornada um item de luxo; já existem startups obstinadas em desenvolver hardwares para reciclagem e compostagem doméstica. Não há limites para a gourmetização.

As chamadas megastores por algumas décadas concentraram “o melhor da cultura”. Reuniam livros, cds e dvds em confortáveis e luxuosos espaços com cafeteria e música ambiente, praticamente um shopping dentro do shopping. Locais que davam (e dão) guarida à adolescência tardia de publicitários que não podiam comprar itens caros, mas que, agora, como profissionais liberais possuem dinheiro para forrar as prateleiras do seus quartinhos na casa da mãe. E o Deus Mercado capturou esse movimento e entregou a essas pessoas produtos cada vez mais luxuosos, franquias infinitas de adaptação de quadrinhos para o cinema… Com a popularização do acesso à internet (e ao download gratuito), essas grandes lojas precisaram diversificar os produtos para adolescentes de 20 e poucos anos e incluíram celulares, tablets e computadores em seus catálogos. Era o início do fim dessas grandes redes.

A indústria fonográfica, na sua face mais cruel, ou seja, as grandes gravadoras e distribuidoras de discos, preocupadas com o fenômeno peer-to-peer, realizaram a tarefa de “aprimorar” os aspectos físicos de seus produtos. E no final dos anos 90 e início dos 00, a mídia física do CD (que já anunciava uma vida curta) recebeu latas especiais, facas de cortes personalizadas e encartes riquíssimos. Tudo isso foi por água abaixo, desceu pelo ralo do esquecimento e hoje a mídia física é apenas um material de divulgação das bandas. Um mero cartão de visitas. Se em algum momento a ideia de vender discos para obter sucesso pareceu uma grande coisa a se fazer, na atualidade não passaria de uma divertida anedota. A mídia física foi substituída pelo Youtube. Perceba que não estamos falando de plataformas de compartilhamento de música P2P como poderia parecer, mas toda a efetividade das relações entre a performance e seu público está resumida ao Youtube. Se não estiver lá, nem sequer existe.

O mesmo aconteceu posteriormente com os filmes. Por décadas as pessoas juntaram seu sacrifício mensal para comprar um título para colocar na prateleira e assistir com as amizades nos finais de semana. Com a popularização do download, os dvds, tal como os CDs tinham somente dois destinos: 1) As caixinhas de plástico eram gourmetizadas com estojos, luvas, sobrecapas, finalizações e acabamentos especiais em verniz, papeis nobres e novamente encartes glamourosos e olhe lá! Latas! Sim! Dvds dentro de latas, como se fossem biscoitos importados do tempo da vovó. Igualzinho aos CDs. 2) Os famigerados balaios de ofertas, onde a pessoa comprava a preço de banana o último dos lotes dessa decadente indústria cultural.

Atualmente, o peer-to-peer dos filmes está sendo ameaçado pela Netflix (muito semelhante ao Youtube, porém com assinatura mensal), conforme alerta Peter Sunde, Co-fundador do The Pirate Bay em entrevista ao Torrent Freak (JAN/2018).

Se você chegou até aqui, já pode perceber que isso já aconteceu com livros das grandes editoras. Então não há razão de falar sobre elas, é hora de expor o próximo passo da gourmetização para além do churros e do picolé de frutas.

“Modern publishing is characterized by its being simultaneously cannibalistic and viviparous: while one publishing house is acquiring another, a third is opening for business.” STEINBERG, S. H.; Five Hundred Years of Printing. 1996, p. 244

“A editoração moderna se caracteriza por ser, ao mesmo tempo, canibal e vivípara: enquanto uma editora está adquirindo outra, uma terceira está abrindo suas portas.”

Conforme Sigfrid Henry Steinberg podemos perceber que depois de tanto comprarem umas às outras, as grandes editoras começaram a comprar as pequenas editoras. Misteriosamente começaram a brotar projetos editoriais, selos, editoras independentes e até mesmo as cartoneiras, inocentes que eram, agora correm velozes para alcançar seu espaço entre a matilha de lobos. Essa acusação, ou constatação, nos remete diretamente ao processo em curso das editoras independentes no Brasil.

Quem pesquisar na internet ou tiver o privilégio de conferir in loco como é dado o “fenômeno” das pequenas livrarias e editoras independentes em outros países, pode perceber que o que está acontecendo aqui no “país dos foliões” tem todas as características de um verdadeiro embuste! Lá fora, coletivos publicadores, pequenas editoras e autoras independentes produzem os livros, vendem de mão em mão em feiras, no próprio site, ou disponibilizam em pequenas livrarias de bairro, enviam para as amizades revenderem, compartilham com centros sociais ocupados e muito eventualmente em alguma distribuidora de nicho. “Lá fora”, pode ser a Argentina, Uruguai e Chile, não somente o velho continente. Uma distro/distribuidora de nicho se dá por temática de conteúdos, ou afinidades políticas entre as casas publicadoras e não por seu modelo de comercialização; logo, um livro independente não é um gênero da literatura, mas somente a forma com que a editora se organiza. E aqui estamos percebendo que as “Editoras Independentes” estão se transformando em mercado, um gênero, um objeto de fetiche da “indústria criativa”. Um orgulho para Pablo Capilantra e a “nova economia da cultura”.

Claro que grandes editoras compram pequenas editoras no exterior também, normal. Esse textão não é sobre isso, mas é sobre o modelo de negócios que está em curso em torno do objeto livro das editoras independentes no Brasil. Há atravessadores sedentos por serem a próxima megastore, a próxima Amazon, só que do livro independente brasileiro. É lógico que existem pessoas muito bem intencionadas que compram uma banca de jornal, um ônibus, um barco, uma bicicleta e transformam-na em livraria independente. Não são dessas pessoas que acreditam no livro independente como uma possibilidade para se fazer a cultura marginal e marginalizada chegar às mãos das pessoas que estamos falando. Estamos falando do inimigo real que quer abocanhar uma fatia dessa conquista das publicadoras autônomas e independentes. Deus Mercado está de olho e salivando por esses livros descolados.

Em breve você vai perceber que dentro das poucas megastores que a Amazon ainda não fechou haverá uma “quitandinha” com as editoras independentes, que os pequenos publicadores que nunca foram associados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) receberão como um espacinho para falar sobre suas produções em seus eventos e não precisar mais correr para fazerem sua “Bienal B”, sua Feira do Livro Autônomo e Independente na mesma data e em outros locais das grandes Feiras do Livro promovidas por instituições e governos. Aos bocados, eles pretendem assimilar as pequenas editoras como frutos de sua própria obra, como parte de sua benevolência, com sua autorização/bênção e até mesmo investindo algum dinheirinho nisso, pois afinal, se existem pessoas para comprar livros independentes, esse pode ser um bom negócio. Ao invés da mídia anunciar o acontecimento de uma contra-bienal do livro reividicando o papel das independentes, a Bienal vai apresentar sua bondade à mídia, ao conceder um “espacinho” em seus stands para as editoras independentes. Você em algum momento vai perceber a participação de um selo editoral de uma grande editora em pequenos eventos de editoras independentes. Então poderá perceber que as concessões são vias de mão dupla (canibal e vivípara) na assimilação do mercado. Se não agirmos, teremos cada vez mais livros bonitos, acabamentos especiais, recortes laser, furinhos, sobre capas, estojos, luvas, latas e menos popularização ou acesso ao livro impresso.

Já existem distribuidoras de editoras independentes recheadas de “agitadores culturais” que estão mais interessadas no objeto livro e como ele se apresenta para seus clientes de luxo, do que com as relações de contingência que fizeram emergir tais publicações. Este é um assunto muito sério, pois raramente as grandes editoras em suas distribuidoras dão descontos acima de 30% para lançamentos, o faturamento é realizado em 30, 60 e 90 dias e o frete é por conta do livreiro. Já o modelo sugerido por algumas dessas “novas” distribuidoras exige 50% do preço de capa dos títulos das editoras independentes (lançamentos inclusive), consignação (ou seja, o acerto é realizado quando e somente quando é realizada a venda ou no mês posterior) e a casa publicadora ainda precisa arcar com os custos de frete para o magnífico distribuidor. Caramba! Aí está realmente um grande modelo de negócio às custas dos esforços das independentes. Vejo o sorriso do SEBRAE neste horizonte!

Essa é uma estratégia de mercado para tornar o objeto livro distante do PDF, para que as pessoas tenham desejo de possuir a obra por seus aspectos físicos e sua aparência. Com tanta gourmetização, o preço dos livros independentes pode chegar à estratosfera. Uma implicação tautológica em direção a lucros muito rentáveis. Uma vez que o conteúdo é igual ao do PDF, ao pesquisar bem e com um pouco de sorte, a pessoa mais desatenta poderá encontrar título igual ou semelhante disponível para baixar na rede. E isso tem significado contínuos prejuízos ao Deus Mercado quando aplicado às grandes editoras. Mas quem terá o PDF das independentes?

NÃO SE CORROMPER PRA NÓIS JÁ É VITÓRIA!

Cada uma de nós na Editora Monstro dos Mares, temos em nossos princípios uma definição inequívoca e ampla sobre as possibilidades do livro de baixo custo nas mãos de compas. Para que as pessoas em contato com nossos livros, para que as ideias impressas nas páginas possam representar a potência de um fuzil. O livro é o fuzil de quem pensa! E ele deve estar na mão de todas as pessoas que estão no enfrentamento diário contra a Hidra de Lerna do grande capital.

O livro não deve ser um objeto de elites, de vanguardas intelectuais, de movimentos exclusivos, nem fruto de uma plataforma específica. O livro carrega em si todo o espectro de possibilidades e experiências de que algo que foi realmente feito para o propósito de estar nas mãos das pessoas, em toda parte. Como afirma Aragorn, no editorial da revista AJODA #59, Primavera/Verão de 2009.

Não se corromper pra nóis já é vitória! Assumimos aqui o compromisso de colocar tinta no papel, cortar, grampear, colar, montar o livro e oferecer títulos de baixo e baixíssimo custo para todas as pessoas. Estendemos este convite às nossas amizades, que tragam esse objetivo em seus princípios para suas editoras, que as autoras e autores exijam a possibilidade de popularizar o acesso ao livro e também, obviamente, que as pessoas rejeitem a gourmetização não apenas dos livros! Baixe o PDF, imprima, distribua!

Entendemos que esse tema causa divergência entre as pessoas que buscam objetivamente viver somente da produção de sua pequena editora, mas nossa experiência fazendo livros, estando nas ruas, na internet e de mão em mão, apresenta a condição de possibilidade para seguir realizando essa tarefa como um princípio, sem depender de intermediários ou grandes redes. Você pode não concordar com este posicionamento, mas este é um princípio muito caro para nossos objetivos e se mais pessoas compartilharem dessas práticas poderemos enfrentar a máquina com mais vigor.

Resista / Recuse
Livros e Anarquia
Editora Monstro dos Mares
Maio de 2018
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Este artigo é dedicado à memória de Aaron Swartz

Quando conhecemos o cotidiano da atividade acadêmica no Brasil é latente as condições de precariedade de pesquisadoras e pesquisadores. Em via de regra, não há bibliotecas especializadas, não há federalização de acervos, não há títulos impressos acessíveis. Salvo as raras exceções, ou a pessoa paga caro pelo livro no Brasil, compra o original no exterior ou “cavuca” a internet atrás do arquivo digital, preferencialmente sem pagar por isso. É praticamente impossível passar pela academia sem a obrigação de baixar conteúdos em repositórios online considerados “ilegais”.

Por isso é importante a memória da luta de Aaron Swartz, que agiu contra os altos custos para acessar conteúdos acadêmicos. O jovem ativista foi levado ao suicídio depois de intermináveis acusações, processos e judicializações. A própria internet surgiu como ferramenta de compartilhamento e universalização do conhecimento, mas se observa que mais e mais barreiras são erguidas em todas as direções. Não podemos permitir que essa jornada prossiga, compartilhe!

Nem Google Analytics, nem Facebook Pixel!

Recentemente aconteceu em São Paulo a CryptoRave, um evento tocha onde pessoas se encontram para trocar informações sobre atividades de segurança, criptografia, hacking, anonimato, privacidade e liberdade na rede. Um dos pontos que estiveram presentes foi justamente a questão da comercialização de dados de navegação por parte das grandes corporações e como isso afeta nossas vidas.

Ao assistir a apresentação “Tor – resistir à distopia da vigilância sem fronteiras!“, de Isabela Bagueros, optamos por remover os scripts de Google Analytics e Facebook Pixel de nossa lojinha. Também realizamos uma pesquisa sobre a possibilidade de realizar compras anônimas ou desativar obrigatoriedades de CPF ou número de telefone nas compras. Mas devido as políticas e exigências dos meios de pagamento (outra questão que devemos problematizar) e os recursos limitados da plataforma de e-commerce que utilizamos, não foram possíveis essas implementações. Esperamos que em um futuro próximo, em servidor próprio e serviço Onion. Quem sabe.

Entendemos que há uma necessidade crescente de debates sobre a privacidade de dados e que de alguma maneira possamos avançar nos direitos de liberdade de expressão e anonimato para proteger pessoas e comunidades da opressão de corporações/governos, no acesso à informação e disseminação de conhecimentos livres, bem como na promoção do bem comum.


Tais modificações surgiram em conversas no grupo da Editora Monstro dos Mares no Telegram (BETA) ao abordarmos questões de segurança e privacidade de dados. Participe.